O tempo passa....

O tempo passa. E, paulatinamente, tudo aquilo que nos era tão precioso e querido, deixa de ser. Simplesmente acordamos um dia e percebemos que nossos valores e prioridades mudaram. E, em um misto de surpresa e decepção, continuamos vivendo, tentando entender como pudemos agir daquela maneira...
O tempo passa. E, dirigindo, um dia, percebo que estou escutando as mesmas estações de que meu pai gostava, e, surpresa, percebo que possuo a mesma opinião que ele em diversos assuntos...
O tempo passa. E, fechando o círculo, percebo que a família volta a ser valorizada, assim como todos os valores intangíveis de que sempre ouvimos falar....
O tempo passa. Vejo um filme de 10 anos atrás e me surpreendo com o fato de que parecia que tinha sido ontem que o filme estreou...
O tempo passa. Olho a minha filha e tremo, ao imaginar tudo que fiz com a idade dela e me pergunto como minha mãe sobreviveu.
O tempo passa, enfim. Envelhecemos, amadurecemos, crescemos, erramos, acertamos, mas vivemos. Hoje sou muito mais como meu pai do que como já fui um dia, mas aprendi a aceitar que estou envelhecendo, mudando, amadurecendo. E amanhã minha filha olhará para mim e se perguntará como eu era quando adolescente, e simplesmente não vai conseguir ver em mim a menina que fui. E eu, me olhando no espelho, ainda vendo aquela menina, não a entenderei.

Postado porLarissa às 12:30 PM 0 comentários Links para esta postagem  

Desilusão

Uma palavra. Um gesto. Algo. Passamos nossa vida à procura de algum sinal de que somos importantes, de que significamos algo, geralmente nos lugares errados. E, enquanto buscamos neuroticamente naquele lugar de onde nunca surgirá o que esperamos, há outra pessoa buscando o mesmo de nós, sem ser notada. E assim os segundos, minutos e horas passam, e envelhecemos, infelizes, apenas porque passamos a vida inteira esperando pela coisa errada no lugar incorreto.

Postado porLarissa às 11:18 PM 2 comentários Links para esta postagem  

Adrenalina

As pupilas dilatam, as mãos ficam úmidas e logo estão frias. O coração dispara, o riso se torna histérico e as ações maníacas. A vontade de levantar, sair correndo e berrar é imperiosa. Mas o adestramento da sociedade nos força a ficarmos sentados, respirarmos fundo e agirmos normalmente.
E, eventualmente, voltamos a normalidade. E assim os minutos passam, as horas correm, e mais um dia se foi. E, novamente, em mais um novo dia, as pupilas dilatam, as mãos ficam úmidas....
E este círculo vicioso se repete religiosamente, e desta maneira pensamos que estamos vivendo, quando na verdade estamos apenas passando nosso tempo, preocupados demais em demonstrar a abjeta normalidade ao invés de fazermos aquilo que sabemos que é necessário fazer. Falar, perguntar, confrontar, entender... não o fazemos. Apenas ficamos fingindo, lutando, nos enganando, para conduzir-nos até o fim de um novo dia, e começarmos tudo de novo.
Quando perdemos a coragem? Quando decidimos que o correto era agir conforme a sociedade denomina "aceitável" ao invés do que o nosso coração clama que é o ideal? Qual foi o momento que o racional venceu o emocional, deixando-o aleijado e escondido em um canto?
Eu não sei. Sei apenas que, hoje, tenho medo. E, ao invés de enfrentar este medo, como sempre fiz, fujo desesperada, de mim mesma, para não encarar a realidade brutal do meu ser: eu mudei, eu cresci, eu me tornei uma covarde, e fugi. Fugi dos fatos, fugi do sentimento, fugi de você. E os segundos, minutos e horas continuam correndo, e a vida continua passando, lá fora, enquanto eu estou aqui, apenas como uma expectadora.
Até o sentimento insistir em surgir de novo, e as pupilas dilatarem, as mãos ficarem úmidas...

Postado porLarissa às 10:01 PM 0 comentários Links para esta postagem  

Platônico

Seu perfume invade minha narina, penetrando no meu cérebro, demorando dias para se dissipar. Sua visão inesperada me deixa sem fôlego e trêmula, enquanto eu o admiro ao longe. Gosto de vê-lo ao longe, porque assim posso olhá-lo, admirá-lo, e sorrir enquanto faço isso, sem ser notada, julgada, avaliada. Meu exterior finge que nada está ocorrendo, enquanto que meu interior está em polvorosa, pensando, sonhando, imaginando. E assim continuo, tentando levar meus dias normalmente. Sem sucesso. Porque você, onipresente, está em todo lugar, me atraindo, me chamando. E eu estou somente aqui, longe, tentando ignorá-lo, tentando esquecê-lo, pensando em você...

Postado porLarissa às 8:40 PM 0 comentários Links para esta postagem  

E agora?

Ontem entrei no orkut, e sua foto estava lá. Me olhando, dizendo que seu aniversário estava chegando. Levei um choque. O tempo, novamente, passou depressa demais. E eu havia me esquecido. Não de você, isso nunca ocorreria, mas do dia do mês, da proximidade, de saber que mais um aniversário seu está chegando, e eu não vou poder te abraçar.
Não vou poder escutá-lo contando suas piadas que às vezes pareciam tão infames, mas que agora me matam de saudades. Não vou poder reclamar do quanto você se veste mal, de que precisa emagrecer, fazer a barba, de que eu já disse que não quero mais nada para comer. Não vou mais poder sentir o amor que você tem por mim, emanando por todos seus poros. Não vou mais poder pedir conselhos, estar ao seu lado, cuidar de você, dizer como está meu trabalho, e que eu estou bem, e trocar idéias diversas.
Não vou nunca poder te mostrar minha filha, e como ela também é toda dengosa, como você sempre disse que eu já fui um dia. Minha filha nunca te conhecerá, nunca te abraçará, nunca brincará de bomba, de “como é emocionante andar de carro”, ou nunca vai comprar um barco com você.
Eu sinto sua falta. Cada nota de Gershwim me lembra você, cada chorinho, cada bossa nova, o leicher, o bolo de laranja, tudo. Queria que você estivesse aqui hoje, pai, me abraçando, me aninhando, dizendo que tudo vai ficar bem. Porque, mesmo que não fosse ficar bem, eu ainda teria você para me apoiar.
E hoje? Hoje nada está bem, e você não pode estar ao meu lado. O mundo é injusto, injusto demais!
Trabalho todo dia lutando, tentando levar tudo numa boa, aceitando, mas dói. Tudo dói. Cada dor cava um buraco mais fundo, e não importa o quanto eu digo que tudo está bem, não está! Nada está bem. Eu não estou bem, eu não aguento mais. Não quero, não sei, não aguento mais dor, mais desilusão, mais decepção.
E quem vai me salvar? Quem pode me ajudar? Ninguém pode hoje. E, incrivelmente, eu que tenho que ajudar aos outros. E agora? Agora é hora de, novamente, como sempre, me levantar, dar um sorriso falso, amarelo, e fingir que tudo está bem. Ver as pessoas passarem ao meu lado, e encontrar aquele sorriso lá no fundo, e usá-lo, quando meu interior sangra fluidamente... e continuar, fingindo que tudo está bem, e a vida é maravilhosa, como sempre.

Postado porLarissa às 3:22 PM 1 comentários Links para esta postagem  

Há 32 anos...

Larissa,

Hoje é 5 de novembro de 1975. Há quatro dias atrás, a esta mesma hora, estávamos em casa, sua mãe e eu, em dúvida se era chegada ou não a hora de você nascer. Afinal, viemos para cá! Poucas horas depois, você nasceu...
A expectativa foi grande. Andrei? Larissa? É estranho, mas eu sabia que seria você. Brincávamos muito, sua mãe e eu, sobre o que fazer. Discutimos muito qual seria a maneira correta de educá-la, fizemos planos, lindos, maravilhosos, estratosféricos, tudo para você.
Agora, não se trata mais de planos. Trata-se da realidade. O que fazer? Como fazer? Estaremos certos? Sabe, filhota, não sei se poderei ajudá-la muito! Mas quero. Quero ampará-la, protegê-la, quero que você tenha uma vida feliz, onde não existem os problemas sem solução.
Sabe, filhota, são bastante diferentes a educação do rapaz e da moça. Veja: como fazer para educar seu irmão e você? Não se trata de ser um pai ultrapassado, velho, quadrado, coroa. Afinal, tenho somente 30 anos, agora. Mas veja, quero que você seja feminina, doce, meiga e resistente o suficiente para aguentar os trancos que a vida vai lhe reservar. Sim, filha, quero que você seja resistente e dura, protegida: espinhos por fora, uma casca rígida, mas por dentro, muito sabor, sentimento, pureza. Porém, meu anjo, defenda-se!
Costumo dizer ao seu irmão quando ele diz que lhe bateram: bata também! Não quero que seja brigão, que viva para brigar, mas quero que, simplesmente, ele saiba se defender dos outros. É o que eu quero que você aprenda, também. Não é sempre que estarei ao seu lado, não é verdade? É para esta ocasião, em que talvez não estejamos com você, que deve ir-se preparando desde agora.
Filhota, os tempos evoluem, atualmente, com muita rapidez. Vimos mudanças grandes nstes tempos. Sou contra muita coisa, sou a favor de muitas outras, outras mais não chego sequer a entender... É certo que vamos ter discussões, atritos, muita coisa que nós falaremos você não vai entender, vai dizer que é coisa de “velho”, mas creia que no fundo só existe mesmo o desejo de protegê-la, e ao seu irmão, e para isto não mediremos esforços.
Não nos interprete mal. Proteger não quer dizer viver fechada em uma redoma de vidro, isolada de tudo e todos. Proteger, neste caso, é simplesmente orientá-la pela vida afora para que você saiba distinguir o certo do errado, o bom do mau, o bonito do feio, e possa saborear, sem muitos dissabores, o que a vida tem de belo, de puro, de honesto, de maravilhoso.
Sim, Larissa, não é fácil viver. Mas, para você, será menos difícil. Tanto quanto para seu irmão. Conosco, você aprenderá o significado do amor, do bem-querer, e, a partir disso, poderá construir para si mesma uma vida cheia de ternura, de afeição, e irá achar a vida uma maravilha, com o mesmo espírito de luta e perseverança como temos tido nós, sua mãe e eu.

Seu pai, Moacyr.

Saudades eternas, pai.... obrigada por ter escrito isto...

Postado porLarissa às 1:08 PM 1 comentários Links para esta postagem  

Como esquecer o inesquecível

Olho a janela, e vejo a chuva a cair. Cada gota que cai, única em sua natureza, me remete aos momentos únicos da minha vida. Ploc, meu primeiro amor. Ploc, minha primeira decepção. Ploc, minha primeira perda. Ploc, meu pai que se foi...
Paro. Com os olhos marejados, olho ao redor, e me lembro do copo de café me esperando na máquina. Me afasto da janela, de todos os momentos de minha vida, da dor, e pego meu café.
Olhando para o copo de café, dentro de sua imensidão marrom, lembro do cheiro do café em meu pai, misturado ao sarro do cigarro. E todas as lembranças me invadem.
Aturdida, jogo o copo fora. E volto à minha mesa, tentando voltar ao meu eu comtemplativo, útil, eficaz. Mas aquela lágrima teima em rolar face abaixo... Como esquecer e deixar para trás algo que faz parte de sua essência?
2 anos se passaram, e nenhum segundo se passou....

Postado porLarissa às 2:55 PM 0 comentários Links para esta postagem