Paradoxo

O amor não é hollywoodiano, em nada se assemelha ao que vemos nos filmes. Não é o coração acelerado, as mãos suadas, o medo, a ansiedade. Isto é paixão, aquele sentimento inebriante que nos faz fazer loucuras das quais sempre nos arrependemos, mas que ao mesmo tempo é essencial para que passemos por cima dos defeitos do parceiro, visto que a paixão é cega. E curta. E, quando a paixão acaba, existem apenas dois caminhos: ir embora ou amar.
E, então, conhecemos o amor: algo cultivado, construído ao longo do tempo, consciente, maduro, duradouro. Amar não é não enxergar os defeitos no outro, e sim conhecê-los profundamente, e amar a pessoa apesar destes. É cumplicidade, vivência, criar a sua história a dois, ter ao seu lado seu melhor amigo, amante, cúmplice, sem nenhum questionamento ou cobrança. Amar é confiar, querer, sonhar com o outro. É ter sua independência e algumas vezes abrir mão dela para estar com o outro. É pensar na felicidade do outro também. É ter alguma grande surpresa na vida e querer compartilhar isto com esta pessoa, logo de cara.
É lindo, e nos satisfaz. Mas nunca será tão profundo ou assustador quanto a paixão. Afinal, como a própria palavra já o diz, paixão vem de passione, em latim, que é sofrimento. A linha entre o prazer e a dor intensos é muito tênue na paixão. Tênue demais. Mas, sem viver este tormento inicial, não se chega ao amor. Paradoxal.

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Lábios

No silêncio opressor do carro, perdida em pensamentos, ela toca seus lábios e pensa nele. Um sorriso tímido começa a aparecer, e crescer, chegando aos olhos e iluminando todo o rosto. Seus pensamentos agora não estão mais perdidos. São únicos, são Ele, sobre ele, com ele. Ainda pensando nele, abaixa os olhos timidamente, ao mesmo tempo em que sente sua língua no meio dos lábios, molhando-os e mordendo-os. Levanta os olhos, e se depara com seu reflexo no espelho retrovisor: um largo sorriso com olhos sorridentes, mordendo o lábio, à espera. Mas, então, se dá conta. Olha ao redor apenas para ter certeza do que já sabe: está sozinha. Ele não está lá, nem ao perto, nem ao longe. Na verdade, ele nem sabe que estes olhos sorriem por ele, enquanto os lábios, por vontade própria, se preparam para ele. E nunca saberá.
Pensando nisso, o sorriso diminui, ao mesmo tempo que ela pega a chave do contato, abre a porta e sai, sozinha, na noite.

Postado porLarissa às 9:25 PM 0 comentários Links para esta postagem  

Noite anterior

Ela acordou assustada. Olhando ao redor, ainda se perguntava o que acontecera na noite anterior. Lógico, se lembrava de tudo, como em um sonho, mas ao mesmo tempo não podia acreditar. Se lembrava de seu nervosismo, das besteiras faladas e não corrigidas, e de tudo o que ocorrera. E se perguntava como seria o dia de hoje.
Levantou-se, ainda atordoada, tomou o banho, se vestiu e foi trabalhar. Em seu rosto um misto de sorriso, confusão e surpresa. E assim passou o dia inteiro. Encontrou com a razão de sua surpresa, susto, e tentou agir o mais normalmente possível. Ele também. E assim o fazem até hoje, mais de um ano depois. O frio na barriga, o medo, a culpa, passaram, mas nunca tocaram no assunto.
Regularmente, ela se pergunta: será que ele se lembra? Será que falarão sobre isso um dia? E gostaria, secretamente, de poder um dia falar abertamente com ele para resolver todas as besteiras faladas, pedir desculpas, se explicar. Mais do que qualquer outra coisa, ela sabe que falou coisas não muito agradáveis, e gostaria de se desculpar. Mas se desculpar implicaria em falar sobre o assunto, assunto que nunca conversaram.
E assim ela continua seus dias, fingindo que nada nunca aconteceu.

Postado porLarissa às 1:52 PM 1 comentários Links para esta postagem  

Virgindade

Certa de que o amor não passa de uma ilusão criada por um sádico, ela decide descobrir o sexo. Abre seu caderno de telefones e procura pela vítima ideal. Passa os olhos pelos nomes, descarta alguns imediatamente, outras coloca no talvez, e vai andando até achar o nome perfeito: bonito, fútil, interessado só nisso.
Liga, joga o xaveco básico, combinam de sair. Se arruma, o encontra, e vão numa danceteria. Dançam, bebem muito, até ela criar coragem. Mão aqui, mão ali, o calor aumenta, e vão embora.
É rápido, confuso, e um tanto quanto dolorido. Antes que ela percebesse, acabou. Combinou de vê-lo de novo, só por não ter nada a fazer. Foi embora, subiu as escadas para sua casa, pensando que o amor não existia, e o sexo era uma piada. E foi dormir.

Postado porLarissa às 8:24 PM 0 comentários Links para esta postagem  


Há dias estou ensaiando algo para escrever... na verdade, é aquela vontade que começa tímida, e vai crescendo, crescendo, até invadir você totalmente.
5 mil assuntos me passam pela cabeça, mas nada sai direito, correto, bom. E, na verdade, estou em um raro período onde preferiria estar na companhia de alguém, passando noites a filosofar sobre tudo e sobre nada do que escrever um monólogo solitário, aqui.
E, mesmo assim, a vontade não me abandona. Tento ler textos dos melhores que conheço, e isso ajuda, mas a vontade pungente de compartilhar continua, e aumenta. Tenho vontade de saber como, quando, onde? De entender a motivação, a necessidade, a psique.
Ha! É isso. Algo me incomoda, algum comportamento me incomoda. E, para tentar entender isto, entro numa neurose louca de escrever, filosofar, entender os outros para tentar, assim, me compreender, e a outros ao meu redor.
Mas, sou só, irremediavelmente só. E não enconro ninguém para elocubrar, conversar, divagar... e fico sem entender a mim, aos outros, a ninguém. Apenas aqui, quieta, só.

Postado porLarissa às 9:08 PM 1 comentários Links para esta postagem  

O tempo passa....

O tempo passa. E, paulatinamente, tudo aquilo que nos era tão precioso e querido, deixa de ser. Simplesmente acordamos um dia e percebemos que nossos valores e prioridades mudaram. E, em um misto de surpresa e decepção, continuamos vivendo, tentando entender como pudemos agir daquela maneira...
O tempo passa. E, dirigindo, um dia, percebo que estou escutando as mesmas estações de que meu pai gostava, e, surpresa, percebo que possuo a mesma opinião que ele em diversos assuntos...
O tempo passa. E, fechando o círculo, percebo que a família volta a ser valorizada, assim como todos os valores intangíveis de que sempre ouvimos falar....
O tempo passa. Vejo um filme de 10 anos atrás e me surpreendo com o fato de que parecia que tinha sido ontem que o filme estreou...
O tempo passa. Olho a minha filha e tremo, ao imaginar tudo que fiz com a idade dela e me pergunto como minha mãe sobreviveu.
O tempo passa, enfim. Envelhecemos, amadurecemos, crescemos, erramos, acertamos, mas vivemos. Hoje sou muito mais como meu pai do que como já fui um dia, mas aprendi a aceitar que estou envelhecendo, mudando, amadurecendo. E amanhã minha filha olhará para mim e se perguntará como eu era quando adolescente, e simplesmente não vai conseguir ver em mim a menina que fui. E eu, me olhando no espelho, ainda vendo aquela menina, não a entenderei.

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Desilusão

Uma palavra. Um gesto. Algo. Passamos nossa vida à procura de algum sinal de que somos importantes, de que significamos algo, geralmente nos lugares errados. E, enquanto buscamos neuroticamente naquele lugar de onde nunca surgirá o que esperamos, há outra pessoa buscando o mesmo de nós, sem ser notada. E assim os segundos, minutos e horas passam, e envelhecemos, infelizes, apenas porque passamos a vida inteira esperando pela coisa errada no lugar incorreto.

Postado porLarissa às 11:18 PM 2 comentários Links para esta postagem